quinta-feira, 27 de março de 2014

Curiosidades: o belo na arte (Kant versus Hegel)





Kant investiga tão somente a experiência da beleza, ao passo que Hegel (1770-1831) trata da arte como um fenômeno histórico e como articulação lógica do espírito. A Estética de Hegel não é uma simples aplicação prática da teoria estética, é uma guinada delicada que muda totalmente o lugar atribuído ao juízo do gosto e à experiência estética por Kant. Se Kant insistia sobre a diferença entre experiência pura do belo e os interesses cognitivo, ético e sensorial, Hegel enfoca a beleza realçando precisamente os interesses ético e cognitivo que a arte efetua. Nas obras de arte, Hegel vê o belo através do prisma do objeto particular, contingente e sensível, embora ele seja, durante longos séculos, o mediador do movimento do espírito. (...) Tentando remediar o formalismo de Kant, a guinada hegeliana incorpora a arte ao movimento do conceito. As formas artísticas sustentam o processo de autodeterminação do espírito até a conquista da consciência de si. Hegel diagnostica o 'fim da arte', isto é, uma superação da imediatez da experiência estética. A Estética de Hegel subdivide-se em três partes: a primeira, sobre o belo artístico e o ideal; a segunda, sobre o desdobramento do ideal em três formas concretas; a terceira, sobre o sistema das artes.

1. O Belo Artístico. Na obra de Kant, tanto na natureza como a arte proporcionam experiências estéticas. Hegel modifica essa perspectiva. Para ele, é belo apenas aquilo que surge do espírito e para o espirito, ou seja, a arte é concebida como trabalho do espirito.(...) Privilegiando o belo artístico, isto é, a experiência da beleza mediada pelo trabalho espiritual, Hegel concebe a atividade artística como um momento que pertence ao trabalho do conceito, isto é, a um processo lógico e racional.

2. As três formas de arte. São formas que ritmam a evolução histórica da arte efetuando o trabalho dialético do conceito que medeia a representação e a apresentação, que constituem as duas faces ou as duas posições complementares da experiência estética. A primeira forma é chamada de 'arte simbólica' e coincide com as religiões naturais. Nesse estágio, o trabalho do conceito 'atravessa-trabalhando' a materialidade resistente dos objetos encontrados. O símbolo se coloca para si a tarefa espiritual da auto-interpretação, mas não consegue ainda resolver essa tarefa.

Na arte clássica, o símbolo estanque desse enigma será destronado por Édipo. Assim, a arte prepara a consciência de si, que, no seu ponto mais alto, faz surgir o pensamento filosófico. Se Kant faz da experiência estética, isto é, do prazer-desprazer que acompanha um juízo imediato, o espaço virtual que assegura a liberdade do juízo, Hegel sobrecarrega a experiência estética e a arte com a tarefa de fornecer formas concretas e cada vez mais efetivas da liberdade.

A forma de arte romântica (não confundir com o romantismo!) cumpre ainda essa tarefa. Sua figuração inicial trabalha e absorve progressivamente a negatividade da arte clássica.

3. O sistema das Artes. Na última parte da Estética, podemos verificar mais uma vez a orientação teológica do desenvolvimento dos gêneros artísticos. Esses são concebidos como efetuações palpáveis dos momentos lógicos do movimento do conceito. Na escultura rudimentar e na arquitetura sacral, aparece o espírito abstrato e exterior. Nas formas da escultura clássica, a presença espiritual torna-se humana, isto é, encontram-se conciliados os lados opostos do espirito e da sensibilidade - conciliação esta que o gênero dramático da tragédia desdobra e leva a uma nova mediação. Na arte romântica, os três gêneros - a música, a pintura e a poesia - fazem surgir a gama dos sentimentos interiorizados da humanidade. Entre esses gêneros, o mais espiritual é a poesia, na qual a palavra prepara a conciliação com a ideia. Nessa derradeira figura, a arte chegou ao seu fim: o espírito absoluto deixa a arte para efetuar-se na filosofia e nas formas institucionais que correspondem a esse saber livre e abrangente.

 

 

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